Psicologia positiva e neurociências
Emoções positivas ampliam o que uma equipe consegue pensar e fazer.
Sentir-se bem no trabalho tem efeito mensurável sobre criatividade, decisão e cooperação. A pesquisa das últimas três décadas explica por quê.
Num estudo com médicos, metade recebeu um pequeno pacote de doces antes de analisar um caso clínico. O presente era simbólico e eles nem o comeram durante a tarefa. Ainda assim, esse grupo integrou as informações do caso mais cedo e ficou menos preso à primeira hipótese de diagnóstico do que o grupo de comparação (Estrada, Isen e Young, 1997).
O resultado ilustra uma das descobertas mais consistentes da psicologia positiva. Emoções positivas leves e frequentes mudam a forma como as pessoas pensam. Elas ampliam o que enxergamos e o que nos sentimos capazes de fazer.
A teoria ampliar e construir
Emoções negativas como medo e raiva estreitam a atenção e preparam o corpo para respostas rápidas, como fugir ou atacar. Isso é útil diante de uma ameaça. Barbara Fredrickson, pesquisadora da Universidade da Carolina do Norte, propôs que as emoções positivas fazem o movimento contrário (Fredrickson, 1998; 2001).
Elas ampliam momentaneamente o repertório de pensamento e ação. A pessoa considera mais possibilidades, explora, conecta ideias distantes. Com o tempo, essas experiências constroem recursos duradouros: amizades, habilidades, conhecimento, resiliência. Esses recursos continuam disponíveis depois que a emoção passa.
O que os experimentos mostram
A ampliação aparece em tarefas concretas. No clássico problema da vela de Duncker, participantes que tinham acabado de assistir a um trecho de comédia resolveram o desafio criativo com mais frequência do que os demais (Isen, Daubman e Nowicki, 1987).
Há também um efeito sobre o corpo. Depois de um estímulo que provoca ansiedade, quem assiste a um vídeo que desperta contentamento ou diversão volta mais rápido aos níveis cardiovasculares de repouso. Os pesquisadores chamaram isso de efeito neutralizador (undoing effect) (Fredrickson e Levenson, 1998).
Em equipes, o humor de uma pessoa se propaga. Num experimento com grupos que negociavam a distribuição de um orçamento, um integrante treinado para expressar entusiasmo aumentou a cooperação e reduziu os conflitos do grupo inteiro (Barsade, 2002).
Uma meta-análise com mais de 200 estudos concluiu que a relação entre felicidade e sucesso vai nas duas direções. Pessoas que vivem emoções positivas com frequência tendem a ter mais êxito no trabalho, nos relacionamentos e na saúde. E boa parte dos estudos longitudinais indica que o bem-estar vem antes do sucesso (Lyubomirsky, King e Diener, 2005).
As dez emoções mais estudadas
Fredrickson destaca dez emoções positivas que aparecem com mais frequência no dia a dia e na pesquisa. Cada uma amplia o repertório de um jeito diferente. O interesse leva a explorar, a gratidão fortalece vínculos, a serenidade abre espaço para integrar o que foi vivido.
- Alegria
- Gratidão
- Serenidade
- Interesse
- Esperança
- Orgulho
- Diversão
- Inspiração
- Admiração
- Amor
Frequência importa mais que intensidade
O cérebro dá mais peso ao que é negativo. Uma crítica pesa mais que um elogio, uma perda pesa mais que um ganho do mesmo tamanho (Baumeister et al., 2001). Por isso, ambientes de trabalho precisam de experiências positivas frequentes para compensar o viés do negativo.
Durante alguns anos circulou a ideia de uma proporção exata de três emoções positivas para cada negativa. O cálculo matemático por trás desse número foi contestado e retirado da literatura (Brown, Sokal e Friedman, 2013). O que se sustenta é mais simples. O bem-estar depende mais da frequência de pequenos momentos positivos do que de picos de euforia (Diener, Sandvik e Pavot, 1991).
Emoções positivas também não pedem que se ignore o que vai mal. Raiva, tristeza e medo são emoções humanas naturais e trazem informações úteis. O objetivo é que os momentos positivos sejam frequentes o bastante para que as pessoas tenham recursos para lidar com os difíceis.
Referências
- Barsade, S. G. (2002). The ripple effect: Emotional contagion and its influence on group behavior. Administrative Science Quarterly, 47(4), 644–675.
- Baumeister, R. F., Bratslavsky, E., Finkenauer, C., & Vohs, K. D. (2001). Bad is stronger than good. Review of General Psychology, 5(4), 323–370.
- Brown, N. J. L., Sokal, A. D., & Friedman, H. L. (2013). The complex dynamics of wishful thinking: The critical positivity ratio. American Psychologist, 68(9), 801–813.
- Diener, E., Sandvik, E., & Pavot, W. (1991). Happiness is the frequency, not the intensity, of positive versus negative affect. In F. Strack, M. Argyle & N. Schwarz (Eds.), Subjective well-being (pp. 119–139). Pergamon.
- Emmons, R. A., & McCullough, M. E. (2003). Counting blessings versus burdens. Journal of Personality and Social Psychology, 84(2), 377–389.
- Estrada, C. A., Isen, A. M., & Young, M. J. (1997). Positive affect facilitates integration of information and decreases anchoring in reasoning among physicians. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 72(1), 117–135.
- Fredrickson, B. L. (1998). What good are positive emotions? Review of General Psychology, 2(3), 300–319.
- Fredrickson, B. L. (2001). The role of positive emotions in positive psychology: The broaden-and-build theory of positive emotions. American Psychologist, 56(3), 218–226.
- Fredrickson, B. L., & Levenson, R. W. (1998). Positive emotions speed recovery from the cardiovascular sequelae of negative emotions. Cognition and Emotion, 12(2), 191–220.
- Gable, S. L., Reis, H. T., Impett, E. A., & Asher, E. R. (2004). What do you do when things go right? The intrapersonal and interpersonal benefits of sharing positive events. Journal of Personality and Social Psychology, 87(2), 228–245.
- Isen, A. M., Daubman, K. A., & Nowicki, G. P. (1987). Positive affect facilitates creative problem solving. Journal of Personality and Social Psychology, 52(6), 1122–1131.
- Lyubomirsky, S., King, L., & Diener, E. (2005). The benefits of frequent positive affect: Does happiness lead to success? Psychological Bulletin, 131(6), 803–855.