Psicologia positiva e neurociências
Flow e engajamento: quando o trabalho absorve por inteiro.
As condições do estado de flow são conhecidas e podem ser desenhadas no trabalho. O engajamento que resulta delas aparece nos indicadores do negócio.
Mihaly Csikszentmihalyi pediu a trabalhadores que levassem um bipe durante uma semana. A cada sinal, em horários aleatórios, eles anotavam o que faziam e como se sentiam. O resultado surpreendeu. As experiências de máximo envolvimento apareceram com mais frequência durante o trabalho do que no tempo livre. Ainda assim, nos mesmos momentos, as pessoas diziam que preferiam estar fazendo outra coisa (Csikszentmihalyi e LeFevre, 1989).
Os pesquisadores chamaram isso de paradoxo do trabalho. O trabalho oferece as condições para o envolvimento profundo, mas a forma como ele é organizado e percebido muitas vezes impede que as pessoas reconheçam e busquem essa experiência.
O que é flow
Flow é o estado de absorção total numa atividade desafiadora, em que a pessoa age com concentração plena e sensação de controle. Csikszentmihalyi chegou ao conceito entrevistando cirurgiões, alpinistas, enxadristas, artistas e operários. Apesar das atividades diferentes, todos descreviam a experiência de forma parecida (Csikszentmihalyi, 1990).
- Metas clarasSaber o que fazer a cada momento.
- Feedback imediatoPerceber logo se está indo bem.
- Desafio na medidaExigência um pouco acima da habilidade atual.
- Concentração totalAtenção inteira na tarefa, sem dispersão.
- Senso de controleConfiança de que é possível dar conta.
- Fusão entre ação e consciênciaA atividade flui quase sem esforço deliberado.
- Perda da autoconsciênciaA preocupação com a própria imagem desaparece.
- Tempo alteradoAs horas passam rápido ou um instante parece longo.
- Experiência autotélicaA atividade tem valor em si, independente do resultado ou do ganho obtido.
Desafio e habilidade em equilíbrio
A condição central é o equilíbrio entre desafio e habilidade, ambos acima da média da própria pessoa. Pesquisadores da Universidade de Milão organizaram as combinações possíveis em oito canais de experiência (Massimini e Carli, 1988). O modelo explica por que a mesma tarefa pode gerar ansiedade num profissional novato e tédio num veterano.
Para quem lidera, o modelo dá uma pista prática. Quando alguém está ansioso, há duas saídas: reduzir temporariamente o desafio ou desenvolver a habilidade. Quando alguém está entediado, a saída é aumentar o desafio. Em ambos os casos, o objetivo é levar a pessoa de volta ao canal de flow.
Do flow ao engajamento
Na pesquisa organizacional, a versão duradoura do flow é o engajamento no trabalho. Wilmar Schaufeli e Arnold Bakker o definem como um estado positivo com três componentes: vigor, que é energia e disposição para investir esforço; dedicação, que é senso de significado e entusiasmo; e absorção, que é concentração profunda (Schaufeli et al., 2002).
O modelo de demandas e recursos do trabalho mostra de onde vem o engajamento. Autonomia, apoio do líder, feedback e oportunidades de aprendizado alimentam o engajamento. Demandas excessivas sem recursos levam ao esgotamento (Bakker e Demerouti, 2007).
O efeito chega ao resultado. Uma meta-análise com cerca de oito mil unidades de negócio encontrou relação entre engajamento e indicadores como produtividade, lucratividade, rotatividade e acidentes de trabalho (Harter, Schmidt e Hayes, 2002).
Referências
- Bakker, A. B., & Demerouti, E. (2007). The Job Demands-Resources model: State of the art. Journal of Managerial Psychology, 22(3), 309–328.
- Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow: The psychology of optimal experience. Harper & Row.
- Csikszentmihalyi, M., & LeFevre, J. (1989). Optimal experience in work and leisure. Journal of Personality and Social Psychology, 56(5), 815–822.
- Harter, J. K., Schmidt, F. L., & Hayes, T. L. (2002). Business-unit-level relationship between employee satisfaction, employee engagement, and business outcomes: A meta-analysis. Journal of Applied Psychology, 87(2), 268–279.
- Massimini, F., & Carli, M. (1988). The systematic assessment of flow in daily experience. In M. Csikszentmihalyi & I. S. Csikszentmihalyi (Eds.), Optimal experience: Psychological studies of flow in consciousness (pp. 266–287). Cambridge University Press.
- Schaufeli, W. B., Salanova, M., González-Romá, V., & Bakker, A. B. (2002). The measurement of engagement and burnout: A two sample confirmatory factor analytic approach. Journal of Happiness Studies, 3(1), 71–92.