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Psicologia positiva e neurociências

Flow e engajamento: quando o trabalho absorve por inteiro.

As condições do estado de flow são conhecidas e podem ser desenhadas no trabalho. O engajamento que resulta delas aparece nos indicadores do negócio.

Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento · Leitura de 7 minutos

Mihaly Csikszentmihalyi pediu a trabalhadores que levassem um bipe durante uma semana. A cada sinal, em horários aleatórios, eles anotavam o que faziam e como se sentiam. O resultado surpreendeu. As experiências de máximo envolvimento apareceram com mais frequência durante o trabalho do que no tempo livre. Ainda assim, nos mesmos momentos, as pessoas diziam que preferiam estar fazendo outra coisa (Csikszentmihalyi e LeFevre, 1989).

Os pesquisadores chamaram isso de paradoxo do trabalho. O trabalho oferece as condições para o envolvimento profundo, mas a forma como ele é organizado e percebido muitas vezes impede que as pessoas reconheçam e busquem essa experiência.

O que é flow

Flow é o estado de absorção total numa atividade desafiadora, em que a pessoa age com concentração plena e sensação de controle. Csikszentmihalyi chegou ao conceito entrevistando cirurgiões, alpinistas, enxadristas, artistas e operários. Apesar das atividades diferentes, todos descreviam a experiência de forma parecida (Csikszentmihalyi, 1990).

  • Metas clarasSaber o que fazer a cada momento.
  • Feedback imediatoPerceber logo se está indo bem.
  • Desafio na medidaExigência um pouco acima da habilidade atual.
  • Concentração totalAtenção inteira na tarefa, sem dispersão.
  • Senso de controleConfiança de que é possível dar conta.
  • Fusão entre ação e consciênciaA atividade flui quase sem esforço deliberado.
  • Perda da autoconsciênciaA preocupação com a própria imagem desaparece.
  • Tempo alteradoAs horas passam rápido ou um instante parece longo.
  • Experiência autotélicaA atividade tem valor em si, independente do resultado ou do ganho obtido.

Desafio e habilidade em equilíbrio

A condição central é o equilíbrio entre desafio e habilidade, ambos acima da média da própria pessoa. Pesquisadores da Universidade de Milão organizaram as combinações possíveis em oito canais de experiência (Massimini e Carli, 1988). O modelo explica por que a mesma tarefa pode gerar ansiedade num profissional novato e tédio num veterano.

Modelo de oito canais da experiência O eixo horizontal mostra a habilidade e o vertical mostra o desafio, ambos em relação à média da própria pessoa. Com desafio e habilidade altos e equilibrados surge o flow. Desafio alto com habilidade baixa gera ansiedade. Desafio baixo com habilidade alta gera relaxamento ou tédio. Ambos baixos geram apatia. Flow Excitação Ansiedade Preocupação Apatia Tédio Relaxamento Controle médiapessoal Habilidade Desafio
Os oito canais da experiência. Desafio e habilidade são medidos em relação à média de cada pessoa. O flow fica na região em que os dois estão altos e equilibrados. Adaptado de Massimini e Carli (1988).

Para quem lidera, o modelo dá uma pista prática. Quando alguém está ansioso, há duas saídas: reduzir temporariamente o desafio ou desenvolver a habilidade. Quando alguém está entediado, a saída é aumentar o desafio. Em ambos os casos, o objetivo é levar a pessoa de volta ao canal de flow.

Do flow ao engajamento

Na pesquisa organizacional, a versão duradoura do flow é o engajamento no trabalho. Wilmar Schaufeli e Arnold Bakker o definem como um estado positivo com três componentes: vigor, que é energia e disposição para investir esforço; dedicação, que é senso de significado e entusiasmo; e absorção, que é concentração profunda (Schaufeli et al., 2002).

O modelo de demandas e recursos do trabalho mostra de onde vem o engajamento. Autonomia, apoio do líder, feedback e oportunidades de aprendizado alimentam o engajamento. Demandas excessivas sem recursos levam ao esgotamento (Bakker e Demerouti, 2007).

O efeito chega ao resultado. Uma meta-análise com cerca de oito mil unidades de negócio encontrou relação entre engajamento e indicadores como produtividade, lucratividade, rotatividade e acidentes de trabalho (Harter, Schmidt e Hayes, 2002).

Referências

  1. Bakker, A. B., & Demerouti, E. (2007). The Job Demands-Resources model: State of the art. Journal of Managerial Psychology, 22(3), 309–328.
  2. Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow: The psychology of optimal experience. Harper & Row.
  3. Csikszentmihalyi, M., & LeFevre, J. (1989). Optimal experience in work and leisure. Journal of Personality and Social Psychology, 56(5), 815–822.
  4. Harter, J. K., Schmidt, F. L., & Hayes, T. L. (2002). Business-unit-level relationship between employee satisfaction, employee engagement, and business outcomes: A meta-analysis. Journal of Applied Psychology, 87(2), 268–279.
  5. Massimini, F., & Carli, M. (1988). The systematic assessment of flow in daily experience. In M. Csikszentmihalyi & I. S. Csikszentmihalyi (Eds.), Optimal experience: Psychological studies of flow in consciousness (pp. 266–287). Cambridge University Press.
  6. Schaufeli, W. B., Salanova, M., González-Romá, V., & Bakker, A. B. (2002). The measurement of engagement and burnout: A two sample confirmatory factor analytic approach. Journal of Happiness Studies, 3(1), 71–92.