Psicologia positiva e neurociências
Forças pessoais: o que cada pessoa faz de melhor, no ponto certo.
Seis virtudes, vinte e quatro forças e uma pergunta prática para líderes: como cada integrante da equipe pode usar mais do que tem de melhor.
Num dos experimentos mais citados da psicologia positiva, voluntários identificaram suas principais forças pessoais e passaram uma semana usando uma delas de um jeito novo a cada dia. Seis meses depois, esse grupo ainda relatava mais felicidade e menos sintomas depressivos que o grupo de controle (Seligman et al., 2005).
A intervenção era simples. O efeito durou porque as pessoas continuaram a usar suas forças por conta própria. Fazer o que se faz bem, do jeito que se é, é intrinsecamente motivador.
Uma linguagem comum para o que há de melhor nas pessoas
Durante décadas, a psicologia teve um manual detalhado para classificar transtornos mentais e nenhum equivalente para as qualidades humanas. Christopher Peterson e Martin Seligman coordenaram um projeto para preencher essa lacuna. A equipe revisou tradições filosóficas, religiosas e culturais de diferentes épocas e regiões em busca de virtudes reconhecidas de forma ampla (Peterson e Seligman, 2004).
O resultado foi a classificação VIA, que organiza o caráter em dois níveis. As virtudes são seis qualidades amplas, valorizadas por todas as tradições filosóficas e religiosas revisadas pela equipe. As forças pessoais são os caminhos concretos e mensuráveis pelos quais cada virtude aparece no comportamento. A virtude da justiça, por exemplo, se manifesta em quem trabalha bem em equipe, em quem trata todos com imparcialidade e em quem exerce liderança.
São 24 forças ao todo. Para entrar na lista, cada uma precisou cumprir critérios como ser valorizada por si mesma, contribuir para a realização pessoal, ser mensurável e aparecer em culturas diversas. Os quadros abaixo mostram as seis virtudes e as forças associadas a cada uma.
As forças centrais
Todos nós temos as 24 forças, cada uma em um grau de desenvolvimento diferente. As cinco forças mais evidentes formam o núcleo do caráter de uma pessoa e recebem o nome de forças centrais. Você reconhece as suas por três sinais. Elas expressam quem você é, dão energia quando você as usa e aparecem mesmo quando ninguém pede.
No trabalho, a pesquisa aponta um ponto de virada. Profissionais que aplicam quatro ou mais forças centrais na rotina relatam mais experiências positivas e enxergam o trabalho como vocação com mais frequência (Harzer e Ruch, 2012; 2013).
O uso ótimo de cada força
Nem toda força pessoal deve, entretanto, ser maximizada ao extremo. Cada uma tem um ponto de equilíbrio que depende do contexto. Ryan Niemiec, do VIA Institute on Character, descreve três zonas para cada força: subuso, uso ótimo e excesso (Niemiec, 2019). A perseverança que conclui um projeto difícil vira teimosia quando ignora sinais de que é hora de mudar de rota.
Essa visão muda conversas de desenvolvimento. Em vez de apontar defeitos, o líder pode perguntar qual força está sendo usada em excesso ou de maneira insuficiente em determinado comportamento ou situação. A crítica deixa de ser sobre quem a pessoa é e passa a ser sobre como ela calibra o que tem de melhor.
Referências
- Harzer, C., & Ruch, W. (2012). When the job is a calling: The role of applying one's signature strengths at work. The Journal of Positive Psychology, 7(5), 362–371.
- Harzer, C., & Ruch, W. (2013). The application of signature character strengths and positive experiences at work. Journal of Happiness Studies, 14(3), 965–983.
- Niemiec, R. M. (2019). Finding the golden mean: The overuse, underuse, and optimal use of character strengths. Counselling Psychology Quarterly, 32(3–4), 453–471.
- Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. Oxford University Press; American Psychological Association.
- Seligman, M. E. P., Steen, T. A., Park, N., & Peterson, C. (2005). Positive psychology progress: Empirical validation of interventions. American Psychologist, 60(5), 410–421.